ACORDE
Por Muddy Waters
Blues Etílicos retoma a carreira em tributo às origens da banda e do próprio blues.
Edson Wander
Mais de vinte anos depois de ser criado e destacado no cenário
musical brasileiro pelo blues, o grupo fluminense Blues Etílicos volta a gravar
um álbum todo dedicado a um dos ícones desse gênero norte-americano: Muddy
Waters (1915-1983). O álbum Viva Muddy Waters inaugura o braço bluseiro
do selo Delira Música, especializado em música instrumental, e retoma a carreira
do grupo, que não gravava nada novo desde Dente de Ouro, de 1996 (os
seguintes foram duas coletâneas).
A parada do grupo foi, em muito,
influenciada pelos trabalhos paralelos de seus integrantes, em especial do
gaitista Flávio Guimarães, um dos criadores do grupo ao lado do baixista Cláudio
Bedran e do guitarrista Otávio Rocha em meados dos anos 80. Nesta época, os três
andavam ouvindo muito os primeiros discos lançados no Brasil de um certo
McKinley Morganfield, que passou à história como Muddy Waters, uma das
figuras-chave na consolidação do que passou a ser chamado de "Delta Blues", um
dos mais populares gêneros musicais norte-americanos feitos às margens do fértil
Mississipi.
Quando ainda era o desconhecido Morganfield fazendo canções
caudalosas e tocando sua guitarra em curtos e vibrantes staccatos, Muddy Waters
foi contactado pelo musicólogo Alan Lomax para uma pesquisa encomedada pela
direção da biblioteca do Congresso norte-americano. Era 1941 e Lomax sacou logo
que havia encontrado um músico precioso, como se viu mais adiante com a mudança
de Waters para Chicago, em 1943, e sua entrada na indústria do disco.
O
fato é que o "descobrimento" de Muddy Waters no Brasil deu ao país uma das
versões mais duradouras, simpáticas e populares do gênero blues. Somando-se as
duas coisas, tem-se no novo álbum do grupo Blues Etílicos uma volta às origens
da banda pela origem do próprio blues. O Blues Etílicos firmou-se nacionalmente
a partir do Circo Voador, outrora espaço de grande efeverscência cultural no Rio
de Janeiro. Gravaram nove discos com praticamente a mesma formação deste 1987
(exceto a troca de bateristas em 1994 e a passagem do vocalista Vasco Faé entre
2003 e 2005). A formação atual conta com os três criadores já citados mais Greg
Wilson (guitarrista e cantor norte-americano radicado no Brasil) e Pedro
Strasser (bateria).
O auge do Blues Etílicos deu-se entre o final dos
anos 80 e início dos 90, a bordo dos discos Água Mineral (1989),
San-ho-Zay (1990) e Blues Etílicos IV (1991), todos lançados pela
gravadora Eldorado. Venderam cifras inéditas para o gênero no Brasil, fizeram
excursões por todo o país e América Latina e abriram shows para outros famosos
mundiais do blues por aqui (Buddy Guy, Robert Cray, Magic Slim etc). O mestre
B.B King os chamaram para abrir sua última apresentação no país, em 2004. A
partir de 1994 (coincidentemente com o lançamento de Salamandra, pela
gigante Sony), o mercado para o grupo foi minguando, além dos projetos paralelos
que começaram a acontecer.
Nessa volta, o grupo resolveu fazer um
tributo respeitando as origens do gênero. O disco foi gravado no fim do ano
passado em sessões ao vivo no estúdio do produtor Amleto Barboni, em São Paulo.
Viva Muddy Waters é o velho e bom blues tocado de forma enxuta, mas
musicalmente rico, cheio de bons solos de guitarra e gaita e diálogos de vozes,
dos intrumentos e dos intérpretes Greg Wilson e Flávio Guimarães. São 10 faixas;
11 se o comprador for ao site do selo e baixar King Bee (James Moore), a
faixa-bônus que vem com a senha que ganha no CD. Outro ícone do blues nacional,
André Christovam toca violão na décima faixa.
A maioria são composições
de Muddy Waters, com exceções de I Want To Be Loved, de Willie Dixon, e
Seems Like the Whole World Was Crying, que Charles Musselwhite cedeu
pessoalmente ao grupo. São faixas belíssimas e mais do que apropriadas para o
CD. Dixon (1915-1992), compositor, baixista e cantor, foi também produtor e
colaborador de Muddy Waters e Musselwhite é gaitista respeitado e ainda na
ativa. O Blues Etílicos volta em bela e coerente deferência ao estilo que a
projetou. Que a volta seja longa e produtiva.
Viva Muddy Waters
Blues Etílicos
Gravadora: Delira Blues
Preço: R$ 22,90, no site do
selo:www.delira.com
| COMENTÁRIOS (1 Comentários) | |||
| Opinião | Comentário | Autor | Data |
| Muito bom, muito bom! Mas, ... | Abinoam Praxedes M... | 18/05/2007 | |
18/05/2007
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